quinta-feira, 21 de outubro de 2010

As Fogueiras da Inquisição - Ana Cristina Silva

Mais do que um romance, este livro constitui um testemunho histórico impressionante. As perseguições aos judeus, tanto pela tenebrosa Inquisição como pelo não menos cruel preconceito arreigado nas convicções populares, constituem algumas das páginas mais negras e brutais do nosso passado.
O Império que então se construía (reinados de D. Manuel I e D. João III) fazia de Portugal o país mais rico da Europa; no entanto, essa riqueza era um disfarce para a fome que ainda se passava no nosso país e, acima de tudo, a ignorância que grassava.
O Estado, na sua ânsia de justificar os erros de má governação, não só tolerava como incentivava o ódio aos judeus para sobre eles fazer recair as culpas de todas as desgraças.
Por outro lado, o Estado perseguia os judeus com a intenção de se apropriar dos seus bens. No entanto, até nesse aspecto se revelou a má governação que parece ser um traço comum de quase toda a nossa história: ao perseguir os judeus apropriou-se de algumas fortunas mas, ao mesmo tempo, provocou a saída para os países nórdicos (mais liberais) de muitas outras famílias endinheiradas.
Mas estes dramas políticos não se podiam comparar aos inenarráveis dramas humanos que a intolerância provocava.
A vida de Ester (avó de Sara que espera a morte na prisão) alerta o leitor para uma realidade muitas vezes esquecida: o monstro da Inquisição não se limitou aos milhares de mortos nas fogueiras; foram muitos mais os que se viram destruídos por torturas cruéis e muitos outros ainda que viveram tolhidos pelo medo, aterrorizados por uma absoluta maldade, praticada com requintes de crueldade, em nome de Deus.
Que Deus é esse que permite crimes tão hediondos? É uma pergunta que ficará eternamente por responder. No entanto, estes não foram os crimes de Deus; foram crimes de homens cegos pelo fanatismo e pelo egoísmo de quem se julga dono de verdades que, de tão absurdas, só a eles podiam convencer.
Notável é também o esforço da escritora para compreender o espírito do Inquisidor (D. João de Bragança). É difícil compreender como a crueldade e mesmo a maldade mais sádica pode esconder-se por detrás da convicção de que se está a praticar o bem.
Uma nota curiosa mas fundamental: ao longo de todo o enredo, são as mulheres que transportam os maiores sofrimentos e, ao mesmo tempo, o maior heroísmo. Se a História de Portugal está cheia de injustiças, foram sempre as mulheres as maiores vítimas. Por isso, serão sempre elas as maiores heroínas.
E no fim de tudo, por maior que seja a desgraça, há sempre uma luz triunfante que está para lá de qualquer dor: “haverá sempre uma luz que brilhará para lá da noite”.
Em suma: um livro triste, revoltante, mas que vale a pena ler porque a maldade tem de ser lembrada. Os maiores erros e crimes do passado assentavam na ignorância, na cegueira que Saramago tanto denunciou. E hoje, será diferente? Já não há fogueiras, mas seremos nós capazes de vencer as trevas do preconceito?
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