sexta-feira, 29 de julho de 2011

Palomar - Italo Calvino

Como diria (talvez) Afonso Cruz, olhar para dentro é como olhar para fora e vice-versa.
Esta é a história (magnífica) do senhor Palomar, um homem reflexivo mas sereno; para ele, o mundo é um espelho da sua alma e vice-versa. Mas Palomar duvida; talvez não seja assim. Ao longo do livro, Palomar vai observando, meditando e tirando conclusões; ou melhor, ilações que, também elas, são alvo de dúvida. Palomar pensa e Calvino escreve; e que bem ele escreve!
Quem ler as primeiras linhas do que escrevi poderá formar de imediato uma imagem que não corresponde à realidade: de que este livro é uma obra filosófica, maçadora e difícil; nada disso; é uma leitura muito agradável, com um traço de humor fino e discreto. E o que Calvino escreve, vai direito à nossa alma.
Aponto de seguida alguns exemplos dessas reflexões:
Logo no capítulo I, Palomar, na praia, nadando frente ao sol poente, Palomar reflecte: se fosse egocêntrico e megalómano, encararia o raio de sol como uma homenagem do astro-rei à sua pessoa; se fosse depressivo ou angustiado diria que todos os seres humanos vêem da mesma forma aqueles raios de luz; e numa perspectiva realista diria que só alguns, como ele, reflectem nestas coisas.
Os elementos e as forças naturais convergem para ele. O mundo tem um sentido muito próprio que só se descodifica dentro do “eu”. Como se todo o mundo fosse subjectivo…
No jardim, Palomar ouve o assobio dos melros – música, comunicação ou ruídos desordenados? Serão eles diferentes do homem? Aquele assobio será uma espécie de não-comunicação, como em certos diálogos com a Senhora Palomar?
No prado: como no universo ou na sociedade humana, o prado é um conjunto de ervas daninhas e relva, coabitando, tolerando-se. Mas um prado não é mais que um conjunto de seres individuais – as ervas. Cada erva é uma individualidade e só olhando para cada uma delas poderemos apreender o que é um prado.
Observando a lua e os astros, Palomar sente o universo como coisa sua; o Universo é o que ELE vê!
Na cidade, Palomar tem um terraço de onde contempla a cidade – antes de conhecermos por dentro, convém conhecermos por fora. A cidade como um conjunto de “eus”.
Na loja de queijos e no talho, Palomar vê os outros como quem se vê a si próprio e vice-versa. Os outros são muitas vezes a expressão do nosso pensamento e da nossa visão do mundo, assim como nós reflectimos todo o mundo social que nos rodeia.
A terceira e última parte do livro é simplesmente magnífica; na reflexão sobre si mesmo, Palomar encara de frente os grandes dramas que avassalam a existência de qualquer ser humano pensante.
Ele dá conta da terrível impossibilidade de compreender o mundo. Todo o seu sonho de compreensão ruiu. A visão que tem do exterior depende das percepções sensoriais, dos códigos de comunicação e da interpretação de símbolos. Ora, tudo isso é subjectivo e enganador. Talvez seja por isso que a desordem interior seja igual à desordem exterior que ele verificou ao longo do livro: a desordem do prado, das estrelas, dos animais no zoo, das carnes no talho, dos bandos de pássaros e até dos queijos.
Finalmente, Palomar pensa ter encontrado o caminho para a paz de espírito: conclui que nunca compreenderá o mundo sem se compreender a si próprio. Volta-se para si próprio. Como se estivesse morto. Só a morte dá sentido ao cosmos porque Palomar, como morto, já não poderá interferir no exterior… tudo é acabado.
Avaliação Pessoal: 9.5/10
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