quinta-feira, 17 de junho de 2010

Ana Karenina - Lev Tolstoi

Nesta obra monumental, Tolstoi faz uma profunda abordagem da alma humana. A história de Ana Karenina, a esposa infiel, é apenas um pretexto para Tolstoi enunciar as suas ideias, firmes e polémicas sobre o casamento, a família, o estatuto da mulher, a estrutura social, etc. Não quer isto dizer que o enredo literário passe para segundo plano. De maneira nenhuma. Trata-se de um enredo cheio de dramas e dilemas que prendem o leitor da primeira à última página.
Ana é, como muitas mulheres, antes de mais, uma vitima de um sistema social em que o casamento nem sempre corresponde aos ditames do coração. No entanto, a grande questão que a Tolstoi aborda é esta: estes dramas resultam da falta de amor nos casais ou antes de uma concepção leviana do casamento ou ainda da incapacidade de adaptação a uma vida em família que exige dedicação quase sagrada?
No entanto, este romance constitui uma abordagem psicológica e social que extravasa em muito estes dilemas familiares. Na última fase da escrita deste livro, Tolstoi entra num período de dúvidas existenciais que o levaram a uma grave crise moral. Refugia-se na religião e abandona a família. Talvez a ficção tivesse influenciado a realidade; talvez este livro ajude a explicar tão radical decisão de L. Tolstoi.
Logo nos primeiros capítulos é nítido que a diversidade de personagens e a sua excelente caracterização leva o leitor a identificar-se obrigatoriamente por uma delas; outras, sem nunca se tornarem odiosas são, desde logo, alvo de alguma aversão (no entanto há em Tolstoi uma certa tendência para compreender sem criticar os personagens menos “simpáticos”). Seja como for, o envolvimento do leitor é sempre incontornável.
Ana é um espírito livre e rebelde, dotada de uma impressionante serenidade, inteligência e bondade.
Traída pelo marido, Dolly (cunhada de Ana) é, pelo contrário, é uma mulher marcada por uma educação feminina que a tornara passiva, ignorante, conservadora e submissa. Perante o desprezo do marido, o alegre e despreocupado Oblonski, Dolly opta pela submissão e dedicação à casa e aos filhos. Fica lançado o repto ao leitor: qual destas duas mulheres terá, para Tolstoi, um destino mais favorável? A resposta a esta pergunta, que o leitor descobre com enorme facilidade, dita a concepção que Tolstoi tem do caminho para a felicidade familiar.
Dolly, após a infidelidade do marido, que a traíra com uma preceptora inglesa, continua desconfiada de novas traições. Foge ao sofrimento desprezando o marido e desprezando-se a si própria. Perante uma desilusão, o ser humano põe em causa o outro mas, acima de tudo, põe-se em causa a si próprio – o caminho mais fácil e tentador é o auto-desprezo; é o abandono à anulação do eu. E Dolly só supera este sofrimento com uma dedicação extrema aos filhos e com a rejeição de sonhos românticos.
Sobre o casamento, afirma Tolstoi: “cometer o erro para depois repará-lo: eis o caminho”. Só o amor pode perturbar essa paz e essa felicidade tranquila. Parece clara a opinião de Tolstoi sobre o amor: muitas vezes, o amor romântico é um obstáculo à paz interior e, consequentemente, à felicidade.
O tempo de Tolstoi (finais do século XIX) foi uma época complicada.
Viviam-se os primeiros tempos do fim da servidão rural mas a libertação dos servos nem sempre era cumprida pelos grandes proprietários. Na Europa nasciam e divulgavam-se as ideias socialistas, que preconizavam a Revolução que deveria conduzir a uma sociedade justa e sem classes. Nicolau é um socialista que sonha com a sociedade ideal. No entanto, é um desiludido. Embriaga-se e vive como um vagabundo. Tolstoi, grande defensor dos direitos dos mais pobres, mostra-se assim pouco crente na opção socialista.
Também a crítica social está sempre presente: nos salões da alta sociedade reina, como sempre, a maledicência.
Alexei (o marido de Ana) desconfia de esposa, depois toma conhecimento de todas as suas aventuras mas a sua grande preocupação é sempre a aparência perante as convenções sociais. Perante o “crime” de Ana, o propósito de Alexei é claro e cruel: “O importante é que eu não sofra e que eles não sejam felizes” (…) “Que ela seja desgraçada, eu não”… o cúmulo da crueldade humana…
O marido enganado transforma o amor em ódio. A curta distancia entre o amor e o ódio! O perdão é apenas uma fachada!
Ana sofre uma verdadeira tortura moral: sentimento de culpa e medo do futuro. Ana está convencida que “não poderia ter sido de outra forma”. Este conformismo, esta falta de capacidade de luta e reacção impede-a de ser feliz.
Tolstoi exalta com firmeza a vida no campo: Levine é um personagem interessantíssimo. Vive encantado com a vida no campo, que o autor descreve com laivos da literatura romântica. Levine é, durante grande parte do enredo, o russo rural e feliz.
É também o exemplo do grande proprietário moderno e justo: vive numa relação próxima com os camponeses, manifestando-se contra a servidão.
Levine representa também o guardião da nobreza russa: que valoriza a terra, o património dos antepassados. No entanto, a maioria dos nobres do seu tempo prefere a cidade, deixando desbaratar esse património.
Mas nem o casamento nem a vida bucólica do campo são suficientes para a felicidade plena. Levine continua à procura do sentido da vida. Não acredita na religião mas reconhece que fora dela não encontra respostas. Os que se afastam da religião acabam por se dedicar as coisas que nada lhes dizem, como a evolução das espécies e outras coisas das ciências.
O ser racional vive para a barriga. Mas não deve ser assim. “Devemos viver para a verdade; para Deus”. A inteligência é orgulho e malícia. É uma fraude.
Acredita numa fé em deus que está acima de qualquer dogma, de qualquer igreja.
Conclui acreditar numa religião universal, numa Consciência Superior, que se baseia em Deus e na bondade, não nas igrejas e nos dogmas.
Kitty é outra personagem central nesta obra. Ela representa a mulher feliz, que soube ultrapassar os dramas do amor, construindo um caminho sereno, de calma e tranquilidade, sem o fogo das paixões avassaladoras que a fizeram sofrer na juventude. É um exemplo de bondade e generosidade. Há em Tolstoi uma certa associação de ideias entre a generosidade, a alegria e a saúde. A cura de Kitty parece ter-se dado por isso: pela bondade, alegria e amor, graças a Varienka (que se revela grande amiga, desprendida, dedicada aos outros) e ao pai, um espírito positivo e pragmático. Aqui nota-se o afastamento de Tolstoi em relação à literatura romântica: foge claramente ao culto do amor sofrido.
Talvez o âmago da obra seja este: haverá culpa? Haverá erro? Não havendo erro, não deveria haver culpa! Mas porque é que a maioria das pessoas só se preocupa com a atribuição de culpa?
As personagens agem de maneiras diversas, evidenciando personalidades distintas mas tudo se passa como se cada uma delas obedecesse a uma lógica própria, tendo cada uma delas a sua razão. A grande “frieza” de Tolstoi nesta análise psicológica permite concluir que a “culpa” é algo de subjectivo. Perante um acontecimento dramático todos têm a sua lógica e todos os comportamentos são justificados e legitimados. Isto, por um lado, desculpabiliza todos os personagens. Mas, por outro, manifesta o egoísmo do ser humano que, incapaz de compreender o sofrimento do outro, apenas procura justificar a sua própria posição.
Um dos aspectos mais perturbadores nesta história é a falta de preocupação com os sentimentos de Ana por parte dos dois homens (Alexei e Vronski). Esse egoísmo parece ser o maior problema de todos os seres humanos, essa incapacidade de entender o outro.

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