sexta-feira, 2 de julho de 2010

O Grande Gatsby - Scott Fitzgerald

Talvez nunca se tenha escrito em palavras tão claras a fragilidade das relações humanas. A fragilidade da amizade, corroída pelo interesse egoísta e iludida pela força estridente da frivolidade. Talvez nunca se tenha escrito em palavras tão eloquentes a força de um amor, a abnegação com que um ser humano se pode entregar a um amor desmedido mas terrivelmente humano.
Gatsby era um grande homem! Um ser humano que todos nós gostaríamos de ter como amigo. Mas aquele mundo grandioso que ele próprio construiu acabou por lhe devolver apenas o travo amargo, ácido e atroz da incompreensão e da ingratidão. Do egoísmo. Do interesse pequenino que há nos espíritos que apenas procuram o prazer fácil na bondade dos outros.
O enredo, magnificamente construído num estilo simples e belo, passa-se nos famosos anos 20 dos Estados Unidos da América, época de libertação, do Jazz, da afirmação triunfal (embora provisória) da prosperidade capitalista americana. Num ambiente de alegria, riqueza material e crença num futuro radioso, os “amigos” do grande Gatsby nasciam como cogumelos em torno da sua portentosa mansão; as festas até de madrugada encantavam a sociedade. Contudo, havia um mistério em Gatsby. Um amor de perdição. Uma paixão muito mais forte que as suas festas, a sua fortuna e as centenas de “amigos”.
Fitzgerald apresenta-nos então um Gatsby generoso, abnegado no seu propósito de recuperar um amor perdido. Mas os obstáculos serão muitos. Toda a força da sua personalidade, todo o poder que o seu ser emanava seria posto à prova num meio onde (por detrás das aparências) se escondiam os mais atrozes e revoltantes defeitos do ser humano. A inveja, a ingratidão, a frivolidade e, acima de tudo, a inacreditável tendência do ser humano para usar os outros como fantoches de vidas assentes no prazer fácil.
Uma leitura mais ligeira poderia concluir que Fitgerald critica a decadência moral e o materialismo. Mas é muito mais que isso. Muito mais mesmo: a tão propalada decadência moral, que os moralistas de todas as épocas apontam não é mais do que a face visível da tremenda maldade humana. E não é uma questão de épocas; é uma questão de natureza humana, capaz de criar um Grande Gatsby mas também grandes demónios disfarçados de gente. Da mesma forma, o materialismo não é o grande inimigo da bondade e da felicidade; é o que está por detrás dele: o egoísmo, esse monstro que nos ataca ferozmente, porque tomos somos humanos.
Este é um livro inesquecível. Um livro que marca indelevelmente quem o lê e sente este drama da fragilidade dos laços que criamos na nossa vida. Haja sensibilidade no leitor e certamente ele repensará a forma como se relaciona com os outros. Afinal, o que queremos deles? Teremos nós a coragem para assumir que os outros não são apenas instrumentos dos nossos interesses? Saberemos que, perto de nós, existem “Grandes Gatsbys” que porventura mereçam a nossa admiração e amizade? Saberemos nós, de facto, o valor da amizade?
Este é um livro excepcional. Um livro que diverte quem lê e ao mesmo tempo capaz de nos fazer repensar muitas das nossas atitudes perante os outros. Em 140 páginas, que se lêem de um fôlego, Fitzgerald faz o nosso retrato, pintado com as cores vivas e alegres da bondade, da generosidade, do amor e da esperança, mas também com as cores tristes e revoltadas do pior que o ser humano é capaz de construir na sua vida.
Eu, pessoalmente, não vou esquecer Jay Gatsby tão cedo… o Grande Gatsby…

Na imagem: Robert Redford e Mia Farrow como Gatsby e Daisy em "The Great Gatsby", filme de 1974. Imagem retirada daqui
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