domingo, 16 de janeiro de 2011

Por Favor Não Matem a Cotovia - Harper Lee

Por Favor Não Matem a Cotovia. Só o título já é suficientemente apelativo para que este livro comece a cativar-nos ainda antes de começar a leitura. Explicando: a cotovia é uma ave pacífica, completamente inofensiva, que não destrói as sementeiras. Esta ave surge aqui, portanto, como uma metáfora das vítimas das injustiças humanas, como a população negra do sul dos Estados Unidos, vítima do racismo. Curiosamente, o título original é bem menos poético: To Kill a Mockingbird.
Muito mais do que um panfleto anti-racista, este romance é constituído por uma história simples, feita de gente simples e escrita com uma delicadeza e uma suavidade que deixam o leitor deliciado. A linguagem infantil, na forma como imita a oralidade, é genialmente recriada por Harper Lee. Toda a narrativa é feita pela voz de uma criança, uma menina de sete anos (Scout), filha de um advogado de uma modesta cidade do Alabama. Scout, juntamente com seu irmão Jem e o amigo Dill seguem o desenrolar do julgamento de um negro injustamente acusado de violar uma jovem branca e defendido pelo pai, Atticus. A comunidade, ignorante e preconceituosa, contrasta com a inocência e candura das crianças e também com a serenidade e racionalidade de Atticus.
Aliás, Atticus é, na minha opinião, a personagem mais fascinante deste livro: ponderado e inteligente mas também sensível e com uma enorme capacidade para compreender o mundo das crianças. Tal como a autora, aliás.
Um dos aspectos mais fascinantes deste livro é a enorme capacidade da autora para compreender o universo infantil. São muitos raros os grandes escritores que se atrevem a ver o mundo pelos olhos das crianças. Harper Lee fá-lo de uma forma genial, revelando uma rara compreensão da psicologia infantil.
Numa outra perspectiva, este livro é um poderoso testemunho da forma como a Guerra da Secessão marcou de maneira indelével os Estados Unidos da América: o confronto Norte/Sul continua no século XX, como continua hoje. Os estados do Sul (como o Alabama, onde se desenrola este enredo), onde predomina a grande propriedade agrícola continuam dominados por uma mentalidade profundamente conservadora, onde pontificam alguns preconceitos racistas, herdeiros do esclavagismo que manchou a história deste grande país. Contra este preconceito (reforçado pelo fanatismo religioso das facções puritanas protestantes) só duas armas são eficazes: a inteligência de Atticus e a pureza das crianças. Ao ler este livro sentimos que se as crianças governassem o mundo ele seria certamente bem melhor.
Este livro envolve também uma enorme lição de coragem, bem patente nesta frase: "Coragem é sabermos que estamos vencidos à partida, mas recomeçar na mesma e avançar incondicionalmente até ao fim".
Enfim, trata-se de um romance magistral, de leitura muito agradável, com um excelente ritmo narrativo. Não há descrições exaustivas e exageradas; aliás sente-se que não há nada de acessório ou inútil neste livro.
Sem dúvida, uma das obras-primas da literatura americana do século XX, a ombrear com O Som e a Fúria ou O Grande Gatsby.

Avaliação pessoal: 9.5/10
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