domingo, 13 de junho de 2010

Guerra e Paz - Lev Tolstoi

Karaguin, Bolkonski, Bezukhov, Mikailovna, Rostov, são cinco famílias de onde Tolstoi parte para uma das maiores aventuras literárias alguma vez empreendida.
Isto não é um romance; nem um tratado filosófico; também não é um livro de história. É uma mistura genial de tudo isso.
Mil e oitocentas páginas distribuídas por quatro volumes, com uma excelente tradução da Editorial Presença percorrem os anos das guerras Napoleónicas no Leste europeu. Nas duas capitais da Rússia (Sampertersburgo e Moscovo), as personagens vêem as suas vidas afectadas de forma mais ou menos indelével pela guerra, sem que isso impeça os dramas, alegrias e tristezas do quotidiano.
A guerra desenrola-se nas altas esferas da sociedade, entre imperadores ambiciosos, generais oportunistas e oficiais interesseiros. Os soldados, esses, são os peões, a “carne para canhão” que emana do povo, desse povo russo heróico e miserável.
Um dos primeiros aspectos que impressiona nesta obra é a imensa capacidade de descrição! Até hoje só tinha lido um escritor com capacidade para fazer descrições tão pormenorizadas sem maçar o leitor: Flaubert. Mas Tolstoi supera-o. O melhor adjectivo que encontro para definir essa capacidade descritiva é cinematográfico! O leitor vê o que Tolstoi descreve. Impressionante. Um dos melhores exemplos é como ele compara o movimento do exército a um grande relógio. Ocupa uma página com essa descrição, de forma magnífica.
O segundo aspecto relevante, que o leitor sente logo nas primeiras páginas é a critica deliciosamente subtil à sociedade da época, com personagens-tipo: o rico e rabujento Bolkonski, o pedante e rastejante Vassili, a descarada e “pé-rapado” Anna Mikailovna, o cabeça no ar Anatole, o romântico e sonhador Rostov, o, arrivista e oportunista Boris, etc. Neste domínio, destaque para a crítica ao papel social da mulher, relegada para um estatuto quase decorativo. A mulher não tem educação escolar, e apenas se realiza com o casamento. Este é ditado pelas normas sociais, pela conveniência e quase nunca pelo sentimento. Revela, sem dúvida, uma concepção algo tradicionalista da mulher: valoriza o seu papel como mãe e doméstica. No entanto, há um certo encantamento pela capacidade que certas mulheres têm para ouvir os homens e apoia-los. A mulher virtuosa não se preocupa com o visual nem com o social, nem como “seduzir” o marido, como defendiam as pessoas “inteligentes”, sobretudo francesas. A esposa perfeita “assumia o papel de escrava do marido”.
Elogia sempre a família tradicional – “o homem com duas mulheres é como quem almoça duas vezes: pode obter mais prazer mas provavelmente não digerirá nenhuma delas”.
O quadro perfeito da vida familiar: os homens discutem negócios, assuntos militares e da governação, as mulheres bordam e servem os seus maridos, as crianças imitam os adultos nas suas brincadeiras.
O amor constrói-se em torno dos filhos e da casa. As grandes paixões são nefastas porque levam ao sofrimento.
Na primeira fase do romance, Tolstoi descreve-nos uma sociedade russa parecia dominada pela cegueira. Boris representa aquela juventude que adora Napoleão, mesmo em guerra com ele. Nikolai Rostov chega a defender a necessidade de não ter espírito crítico: “se começarmos a fazer juízos sobre tudo e a raciocinar, nada haverá de sagrado”.
Boris foi o primeiro a descobrir que a inteligência e a bravura não são o mais importante no exército e na sociedade mas sim a bajulação aos superiores. Ele prefere a capital (Petersburgo) onde pode conviver com a alta sociedade.
Ainda no aspecto social, realce para a ausência da burguesia, numa época em que noutros países já se afirmava a sociedade burguesa fruto da industrialização e do liberalismo. A alta sociedade russa é dominada por terratenentes ainda agrarrados à servidão, já abolida no ocidente há muito tempo.
Interessantíssima a figura de Pierre: aparentemente sem personalidade, ingénuo e às vezes bêbado, no início da obra admira Napoleão e é feliz. Mas ao longo dos volumes Pierre vai deambulando na incerteza da sua própria personalidade, na procura incessante de um sentido para a vida.
Pierre é um homem sem respostas; um homem atormentado pelas dúvidas sobre o sentido da sua vida. A maçonaria surge como a fonte dessas respostas. Pierre, um homem puro, acredita que só com essa pureza pode compreender a Fé.
Mais tarde, Pierre tenta dedicar-se às terras: Tolstoi critica frontalmente a servidão. Pierre decide começar a libertar os seus servos e encontra nesse serviço aos pobres uma fonte de felicidade. Pierre volta a sentir-se realizado e personalizado. No entanto, as incertezas voltarão. Parece ser esta a sina de um homem que questiona o mundo, que não se satisfaz com a vida aparente que a maioria cultiva. E até ao fim do romance, Tolstoi presenteia-nos com uma estória riquíssima, a de Pierre, com experiências de vida incríveis, simbolizando todas as estratégias que o ser humano procura para, tão simplesmente, encontrar essa paz a que chamamos felicidade.
Outro traço característico da escrita de Tolstoi é uma intensa religiosidade, por vezes mesmo apologética, mas independente da chamada religião institucional. Ele advoga a necessidade vital da religião, da fé, mas não da Igreja ou dos dogmas: uma religião pura, que pratique o amor ao próximo e a bondade. Andrei, às portas da morte experimenta um conceito totalmente espiritual de Amor: um amor sem objecto; um amor que é apenas amor; “amar Deus em todas as suas manifestações” é amar sem objecto nem objectivo – simplesmente, amar! Essa é a essência da alma que permite amar o inimigo. É o amor divino.
Também sempre presente em Tolstoi, a crítica aos políticos e militares russos, excessivamente preocupados com os salamaleques, os protocolos, as condecorações, as aparências (como toda a sociedade russa) e incompetentes no campo militar. Aí, a bravura de alguns (Bagration, Denissov, Andrei…) e a inteligência de outros (Kutuzov) não consegue compensar a incompetência de tantos (a maioria) preocupados com a carreira e as aparências.
Em relação à guerra, Tolstoi desmascara a desinformação que reinava na sociedade russa: os relatos da guerra são sempre subjectivos, falseados e exagerados. É essa a “verdade” que circula na Rússia: em vez das derrotas e misérias circulam os boatos de feitos heróicos, as gabarolices e as notícias de condecorações.
Destaca-se sempre uma grande simpatia pelos soldados, a gente do povo. Esses são os que morrem. Os que não interessam aos generais e políticos.
Na guerra, Tolstoi descreve com incrível realismo todas as misérias por que passa o exército russo; os soldados, esfomeados, recorrem a ervas perigosas para se alimentar. As aldeias prussianas eram pilhadas constantemente, tanto por franceses como por russos.
Descreve com pormenor a vida miserável dos soldados e um “hospital” com condições absurdamente desumanas.
Curiosamente em Tolstoi todas as personagens parecem ter um lado bom, humano, principalmente os jovens: a maior parte deles são ingénuos, sem ideias, por vezes “ocos” mas sempre com algo de positivo na alma e abertos à espiritualidade.
Por exemplo, num acto de bravura, Nikolai Rostov captura um oficial francês. No entanto, reage com uma certa nostalgia, mesmo tristeza. É o lado desumano da guerra que o apoquenta: na verdade, os franceses eram seres humanos.
A família Rostov é o retrato da bondade, da simpatia e de todos os valores humanos que levam o leitor a desejar um final feliz para personagens tão cativantes como a bela Natacha, a infeliz Sónia, o valente e bom Nikolai, o pequeno e feliz Pétia. Mas a vida nem sempre se compadece com a bondade…
Os Rostov são o símbolo da união familiar. Tolstoi nunca abandona este lado moralista em que a família, desprovida de interesses sociais e ambições desmedidas permanece como um reduto e um pilar fundamental da sociedade.
Mas o lado mais profundo desta obra encontra-se nas intensas reflexões com que Tolstoi povoa o romance.
Uma das questões que mais o preocupa, e para a qual acaba por não encontrar resposta, é esta: porque é que aconteceu a guerra?
As causas da guerra são tantas que não são nenhumas; é errada a ideia dos historiadores de tentarem identificar este ou aquele facto como causa principal da guerra. “O acontecimento deu-se apenas porque sim”. Há dois lados na vida de qualquer homem – a vida pessoal e a vida “de enxame”, em que o homem apenas cumpre leis prescritas. Esta é uma espécie de vida inconsciente e colectiva; é a História! O Rei, esse, é escravo da História. O próprio Napoleão era empurrado pela História, por uma vaga de fundo difícil de identificar mas impossível de suster: “Nos acontecimentos históricos, os assim chamados “grandes homens” são etiquetas que dão o nome aos acontecimentos”.

No inverno de 1812 Napoleão será derrotado, perante um exército inferior e com generais inexperientes. Causas: o inverno russo e o ódio que Napoleão despertara no povo russo. Os historiadores russos dizem que a vitória se deveu ao génio de Pfull, ou de Tolly, ou de Alexandre, que atraíram os franceses para o interior da Rússia. Os historiadores franceses, pelo contrário, dizem que Napoleão sentiu o perigo da campanha, o perigo de estender a linha de avanço e teria evitado confrontos. A verdade é que nenhuma destas versões está correcta. Nem os russos queriam atrair os franceses (confrontaram-nos sempre) nem Napoleão tinha qualquer receio de avançar, evitando confrontos. Napoleão não previu o perigo de Moscovo. O recuo das tropas russas não foi estratégico! Deu-se quase por acaso: Bagration recusa-se a aproximar-se do alemão Tolly, seu superior, que detestava. Alexandre, com demasiados conselheiros, não consegue unir os 2 exércitos, que recuam.
Esta critica aos historiadores é uma constante ao longo da obra. Tolstói estava muito à frente do seu tempo, até na análise histórica – a História só relatará a verdade quando não se limitar aos grandes homens (só no século XX esta verdade haveria de ser praticada, pela chamada História Nova, da escola francesa).
Sobre as guerras: Se a guerra se fizesse para expandir a civilização e o bem estar dos povos, seria um contra-senso, porque elas envolvem mortes e destruição de riquezas. Os livros e a ciência fariam isso muito melhor. No entanto, porque é que acontecem as guerras? Por acaso. Porque sim. E os génios aproveitam o acaso.
Esta análise histórica revela já uma crítica ao positivismo lógico (teoria fundada por Augusto Compte que defendia a extrema cientificidade da análise história): a nova ciência derrotou a antiga que se baseava no poder da divindade; mas imita-a, substituindo Deus pelos grandes homens. Mas não são os grandes homens que movem a História; são os movimentos dos povos; e a História não dá resposta à grande questão: o que faz mover os povos? O que provoca as ondas de fundo?
Alguns historiadores dizem que a história não é movida por um homem porque eles são fruto dos acontecimentos. Mas param a meio do caminho porque caem sempre no determinismo da acção desses líderes.
Porque é que isto acontece? Porque os historiadores também são homens grandes: se a história fosse escrita por comerciantes ou soldados dir-se-ia que os comerciantes e os soldados eram os construtores da história.
A História não se escreverá correctamente enquanto não for escrita a história de todos os homens! Porque só aí se encontra a força que faz mover a História.
Fica clara a visão “avançada” de Tolstoi sobre a análise histórica. No entanto, em minha opinião acaba também por cair num certo dogmatismo que impediu de ter em conta determinadas realidades:
1-      As vagas de fundo, como ele lhes chama, são provocadas por uma soma de vontades individuais – desde o soldado ao comerciante, do camponês ao intelectual, todos têm vontades, embora todas elas diferentes! Ora, por vezes, há objectivos comuns que servem diferentes vontades. É nesse momento que se dão os grandes movimentos da História. Pergunta Tolstoi, aparentemente sem resposta: porque é que os franceses desataram a matar-se uns aos outros a partir de 1789? Obviamente não foi só pela vontade dos homens grandes; é que cada um dos franceses tinha os seus motivos, as suas vontades e a violência servia essas vontades: o servo de matar o senhor, o ateu matar o padre, o comerciante matar o cobrador de impostos, etc. Todos estavam unidos por um objectivo: expressar o ódio por aqueles que consideravam opressores.
2-      Tolstoi parece esquecer que os grandes homens movimentam e manipulam vontades, logo, há toda a legitimidade em destacar o seu papel. Os milhares de soldados que matam outros milhares fizeram-no por vontade própria ou pela vontade de Napoleão ou Alexandre?

Obviamente, estas minhas observações à análise histórica de Tolstoi não impedem que considere esta obra como uma das mais majestosas e brilhantes alguma vez escrita.
Sem dúvida, uma obra genial.


*Imagens retiradas de http://pt.wikipedia.org
(em cima, Alexandre I, Czar da Rússia e Napoleão Bonaparte)
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